Carnaval 2008. E dai?

Janeiro 31, 2008 · 9 Comentários

Eu e a Gabi precisamos ajudar minha filha em uma matéia sobre o Carnaval.
Titubeei, porque Carnaval realmente não é meu forte. Talvez seja uma vergonha como brasileiro eu não saber, não adorar, não entender de Carnaval.

Não posso dizer que sou ruim de samba ou que tenha vergonha. Sem desmerecer o sambista, acho que basta tomar umas cervejas ou caipirinhas e qualquer um vai sambar o suficiente para dar pro gasto. Paralelo a isso eu moro perto de duas grandes escolas de samba paulistanas. É possível ouvir ao longe a bateria, poderosa. Pena que a música em si nunca me conquistou.

Acho bonito a idéia de fazer uma música popular dançante e ao mesmo tempo poética, mas o samba enredo sempre me pareceu (e me desculpe se algum especialista ler isso e discordar) apenas um ritmo afro dançante, como muitos outros.

Para mim o Carnaval nunca passou de um período em que a única vantagem é a liberação da sensualidade. Mas afinal, os problemas advindos disso são grandes e a mídia explorando de forma inclemente a sensualidade da mulher, ou o estereótipo da negra-objeto-sexual, é tanto que incomoda. E olha que estou muito longe de ser um puritano.

Para se contrapor ao Carnaval inventaram os retiros espirituais, que são uma alternativa, porém parecem mais medo e controle sexual, na maior parte das vezes.

A verdade é que dentro de mim fica aquela briga entre um desejo idealizado de ver o Carnaval como a cultura passada através de uma festa popular e a realidade crua em que o Carnaval é uma tentativa de fugir dos freios sexuais impostos pela sociedade hipócrita, sendo uma festa financiada por dinheiro ilegal e apoiada no turismo sexual (muitas vezes envolvendo menores, o que é mais triste), além dos problema causados pelo feriado em si, como as milhares de mortes por imprudência nas estradas, doenças, exageros com álcool.

Ainda temos campanhas inocentes do governo alertando para esses fatos, mas são tão ineficientes e tão pudicas que chegam a ser motivo de chacota.

Com todas essas considerações abertas, não consigo me deleitar com o Carnaval.
Sei que temos respeitáveis artistas da MPB envolvidos em seu trabalho, mas não me emociono. Espero que no final, as pessoas realmente se beneficiem de alguma forma com a festa seja com alegria, cultura ou sexo responsável.

Para mim, o Carnaval é útil para ganhar mais dias com minha família, mais tempo para escrever para a revista e descanso.

Por fim, como um anti-sambista, relembro o único samba “gótico” que conheci e claro, achei maravilhoso, graças a sua poesia simples, melodia triste e bem feita e pela voz do mestre Benito:

Retalhos de Cetim (Benito Di Paula)

Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim,

Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.

Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei.

Em tempo: fica o alerta de sempre para todos que curtem a festa não transformarem o Carnaval em uma Quarta-feira de cinzas.

Categorias: Crônica crônica · Polemica

9 respostas Até agora ↓

  • elisabetecunha // Janeiro 31, 2008 às 3:47 pm | Responder

    Társis, Moro em Salvador, perto do olho do vulcão.Mas estou fazendo as malas e estou indo para praia, não tenho mais cabeça pra aguentar essa loucuraaaaa!
    beijos querido amigo!

  • Gabs // Janeiro 31, 2008 às 6:57 pm | Responder

    “Sem desmerecer o sambista, acho que basta tomar umas cervejas ou caipirinhas e qualquer um vai sambar o suficiente para dar pro gasto.”

    HUAHAHAHAHHA…é por essas e outras coisas que eu te amo, amo, amo.
    Sempre amei e sempre vou amar.
    Eu odeio carnaval, mas criança é criança e tem que brincar, por isso comprei uma peruca colorida pra Sophia, confete, serpentina e espuma para ela se refestelar e jogar nos amiguinhos :)

    Quando ela crescer ela decide se gosta ou não do carnaval.

    Beijos

  • Morelli // Fevereiro 1, 2008 às 1:46 pm | Responder

    Carnavel é bacana bragarai, seu góticos!
    E po Tarsis, e todas aquelas banda cariocas dos 80s que misturavam samba e pós punk?
    Ouça Black Future e a apocaliptica Eu sou o Rio, um samba enredo das trevas!
    Mais dificil é encontrar material da obscura Zifio, que definia seu som como pagótico (sim, pagode gótico, rsrsrsrsrsrrsrsr)
    Agora entre no blog coletivo que me chamaram pra colaborar,
    Abraço!

  • tarsischwald // Fevereiro 1, 2008 às 1:51 pm | Responder

    Bom, eu me lembro só do Picassos Falsos, eles até fizeram um Show bacana com a PJ Harvey e Primal Scream, mas ninguém deu bola…

    Agora PAGÓTICO é foda.
    Vou te visitar lá, podexá!

    Abs!

  • Giseli // Fevereiro 1, 2008 às 4:39 pm | Responder

    É, realmente não ligo muito para Carnaval :)
    Mas enfim, gosto é gosto. Vou aproveitar o feriado para estudar :P
    Bjos!

  • Edmur Bobby // Fevereiro 1, 2008 às 7:22 pm | Responder

    Sensacional!
    Passei por aqui pra dar uma olhada e retribuir a sua visita no meu blog, e tive uma bela surpresa. Excelente texto. Aliás, escrevi sobre o carnaval hoje também, só que de uma maneira, digamos, mais revoltada. Se der, dá uma passada lá.
    A propósito, colocarei o link do teu blog lá.

    Abs,

  • Orlando // Fevereiro 2, 2008 às 1:38 am | Responder

    Társis, querido, o samba-enredo, as letras principalmente, são todos – todos! – grandes homenagens a André Breton. E, convenhamos: parvos não saem pela aí homenageando o Breton, certo? Daí dizerem, e mais, jurarem que samba-enredo é cultura. Pô.

  • tarsischwald // Fevereiro 2, 2008 às 11:53 pm | Responder

    Orlando, todos os sambas-enredo também são altamente influênciados pelo dadísmo (afro) construtivista.
    Sobretudo a agremiação do Unidos do Caralho a Quatro!

    Abs!

  • Feliz Ano Novo, de novo! « // Fevereiro 6, 2008 às 12:19 am | Responder

    [...] 6, 2008 · No Comments Como sempre acontece no Brasil, o fim do Carnaval (sic) decreta o real momento em que o ano se inicia. É o fim da festa com algumas mortes na [...]

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