ONDE FOI PARAR O TEMPO?

Abril 1, 2008 · 5 Comentários

Perguntar não ofende: onde foi para o Tempo?

Quando eu era guri, havia mais terrenos baldios, e menos canais de televisão.
Mais cachorros vadios e menos carros na rua.

Havia até carroças na rua, em plena São Paulo. E carroceiros fazendo o pregão dos legumes. Havia mascates batendo de porta em porta - convenientes ou não.

E mendigos pedindo pão velho. Por que os mendigos não pedem mais pão velho?

O Velho do Saco assustava as crianças. O saco era de estopa, claro. Não havia uma enorme profusão de sacos plásticos - levávamos sacolas de palha para o supermercado.

E cascos vazios para trocar por garrafas cheias - não haviam garrafas descartáveis.
Refrigerante era caro. Só tomávamos no fim de semana, domingo, com a macarronada da vó, ou com sorte, sábado, quando pedíamos uma pizza. Pedíamos de vez em quanto, claro, pois haviam poucas pizzarias e era um evento social jantar nelas.

As latas de cerveja eram de lata mesmo, não eram de alumínio. Leite vinha num saco. Ou então o leiteiro entregava em casa, em garrafas de vidro.

Cozinhava-se com banha de porco, depois óleo em latas de ferro. Toda dona-de-casa tinha uma lata de banha debaixo da pia.

O barbeador era de metal, e a lâmina era trocada de vez em quando. Mas só a lâmina.

As camas tinham suporte para mosquiteiro.

As casas tinham quintais. Os quintais tinham sempre uma laranjeira, ou uma pereira, ou um pessegueiro e comíamos fruta no pé. Ou lutávamos para pegar o que caia no quintal do vizinho, que tinha um muro baixo, não era todo fechado, lacrado e com arame farpado.

Minha vó tinha fogão a lenha. E compotas caseiras abarrotando a despensa. E chimia de abóbora, e uvada, e pão de casa.

Meu pai tinha um amigo que fumava palheiro. Era comum fumar palheiro na cidade; tinha-se mais tempo para picar fumo. Fumo vinha em rolo e cheirava bem. Hoje o palheiro é usado para outro tipo de cigarro.

O café passava pelo coador de pano. As ruas cheiravam a café. Chaleira apitava. O que há com as chaleiras de hoje que não apitam?

As lojas de discos vendiam long plays e fitas K7. Supimpa era ter um três-em-um: toca-disco, toca-fita e rádio. Dizia-se ’supimpa’, que significa ‘bacana’. Pois é, dizia-se ‘bacana’, saca?

Os telefones tinham disco. Discava-se para alguém. Depois, punha-se o aparelho no gancho. Telefone tinha gancho. E fio. Celular só existia no seriado Jornada Nas Estrelas, ou no telefone sapato do Agente 86.

Se o seu filho estivesse no quarto dele e você no seu escritório, você dava um berro pra chamar o guri, em vez de mandar um e-mail ou um recado pelo MSN.

Estou falando de outro milênio, é verdade. Mas o século passado foi ontem! Isso tudo acontecia há apenas 20 ou 25 anos, não mais do que o espaço de uma geração.

Agora, cremos que a vida ficou muito melhor.

Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso.
Então por que engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados?
Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada?
Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

Autor: Marcelo Canellas

Categorias: Crônica crônica
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5 respostas so far ↓

  • *Me* // Abril 1, 2008 às 1:59 pm

    É triste né.. e eu tento ter algumas coisas velhas e boas em casa ainda…
    minha casa ainda tem quintal com árvores..
    minhas filhas ainda brincam na calçada com as vizinhas…
    elas ainda brincam com terra, ganham pintinhos…
    pegam minhocas… fazem comidinha com plantas…
    e enquanto eu puder adiar o primeiro video-game eu vou…
    Fazemos pique-nique…. deitamos e vemos formas nas nuvens…….. contamos estrelas…
    elas colocam cadeiras no muro pra conversarem por ele… o leite aqui ainda é de saco, e ainda tem o leiteiro q deixa o leite na porta da sua casa…. e eu ainda reclamo que viver no interior é uma merda….
    Tem carroça rssss… pouca pizza… garrafas retornáveis de 1 litro…….

  • giseli // Abril 1, 2008 às 2:00 pm

    Ah, que nostalgia… me fez lembrar da minha infância, ia dormir todo mês um fds no sítio do meu avô, correr atrás das galinhas, dar milho e desfrutar do leite que vinha direto da vaca. E também do tempo em que eu brincava bastante na rua, de pega-pega e queimada.
    A vida moderna nos dá certos privilégios, mas também desvantagens como o fato de que não há mais tranquilidade no dia-a-dia e não dá para ter um café-da-manhã de 1 hora.

  • Tata // Abril 2, 2008 às 3:45 am

    é, é bom lembrar disso tudo. aiai (suspiro)…

    mas não sou daqueles saudosistas que acham que tudo - e absolutamente tudo - era melhor há 20 ou 25 anos.

    “a vida ficou muito melhor” também é uma coisa ampla e genérica demais. avanços são necessários e muitos deles são benéficos. o preço que se paga por eles é que as vezes é alto demais. e podem até matar, veja só.

    a propósito, o tempo que ganhamos acho que usamos para trabalhar. e, ainda assim, não parece o suficiente. tsc, vida besta…

    um beijo, társis.

  • aliengirl // Abril 3, 2008 às 8:15 pm

    nossa parece que isso foi há muito, muito tempo numa galáxia tão, tão distante…

  • Gabs // Abril 4, 2008 às 2:49 pm

    Eu quero essa vida de volta.

    Esse é meu projeto de vida.

    E aí? Topas?

    Te amo

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